O DEBATE DAS CEPAS
Coluna de Opinião
As cepas se trançavam em uma disputa de nível vergonhoso. Baixo. Não discutem ideias, senão que se insultam. Não vem o tronco que subjaze baixo a folhas. O Vinhedo está infestado de intrusos. As falsas aranhinhas da videira e os burrinhos da macieira não deixam escutar a voz do mediador. Todo é caos nesse debate que definirá a próxima eleição da cepagem no Chile. Os nematódeos não emitem palavra alguma. Se mantém agasalhados. Ocultos. Não perseguem um ideal político. Simplesmente protestam contra um sistema que os exclui, margina, e livram uma soterrada luta contra os porta-enxertos que tentam manter o ordem. Por Eduardo Brethauer.
No meio desse confuso ambiente, o Carménère abre os fogos.
-Seu tempo já passou – enfrenta a um surpreendido Cabernet Sauvignon. Governou os campos chilenos durante décadas e não logrou se posicionar mais arriba do seu nariz. Hoje é meu turno de mudar as coisas.
- E como pensa liderar as nossas exportações se não tem experiencia alguma? Você é um aparecido.
- E você é uma cepa ancilosada e chata.
- A gente não e boba. Você é uma cepa que só quer poder. Oportunista!
O mediador deve intervir.
-Acabou o seu tempo, Cabernet. Repito, acabou seu tempo. Deixemos falar aos outros candidatos.
- Quero deixar bem claro que meu estilo não são as desqualificações – interrompe o Merlot. Todos temos que remar para o mesmo lado. Acredito em uma vitivinicultura onde cada cepa tem seu espaço. Onde…
- Você não existe! – Interrompe o Carménère.
O Merlot acusa o golpe e pede água. Está desidratado.
- Todos vocês representam o passado de um Chile que já ninguém quer. Na minha qualidade de estrela de cine, chamo às pessoas a acreditar na minha candidatura, a se atrever por um novo estilo de fazer política – diz o Pinot Noir.
- Cala a boca, macilento – murmura o Cabernet Sauvignon.
- Justamente acredito em um país onde não importe a origem, onde não importe a cor…
- Como que não lhe importa a cor? Então, por que está reclutando candidatos de outras cepas para formar a sua lista parlamentária?- intercede o Carménère.
- Porque acredito na diversidade, em uma vitivinicultura onde não haja nem ricos nem pobres, onde todos tenham cabida em Wines of Chile, onde os pequenos tenham os mesmos direitos que os grandes…
- Você é um moleque. Uma coisa é propor e outra muito distinta é governar – responde o Cabernet Sauvignon.
O mediador pede que o Cabernet e o Carménère não monopolizem a palavra.
Acho que é hora de nós: as cepas brancas. Já demonstramos do que somos capazes. Temos contribuído a mudar a imagem da nossa vitivinicultura, refrescamos a forma de fazer política… mas, por outra parte, ainda temos muito por avançar…. continuamos pegas em um mundo onde as cepagens tintas alcançam as maiores puntuações, os maiores preços…
- Proponho oferecer mais barrica e menos chips… mais fruta e menos madeira…- o Carménère faz ouvidos surdos às palavras da Sauvignon Blanc.
- Demagogo- gritou outra cepa tinta que tinha guardado silencio.
- E a você quem a deixou falar? Primeiro defina-se. O que se crê? Um afrancesado, australiano ou chileno? Syrah ou Shiraz?
- Ei, não esqueçam de nós – reclama o Carignan. Por muito tempo nos trataram como se fossemos o pátio traseiro da vitivinicultura chilena. Ninguém acreditou no nosso potencial. E agora que querem votos, que estão desesperados por mostrar uma imagem mais nítida e diversa no exterior, lembram-se dessas idosas parreiras que despreciaram. Têm uma dívida histórica conosco.
- Prometo saldar essa dívida progressivamente e dar-lhe um bônus aos países que queiram ser enxertados.
- Populista – grita o Pinot Noir.
- Proponho um governo de unidade – expressa uma mistura tinta.
- Não é uma má ideia – replicam os outros candidatos .
- Estou de acordo – afirma o Cabernet Sauvignon. Mas eu sou quem deve governar a mistura.
Os nematódeos são os únicos que celebram.
Publicado originalmente em http://www.brethauer.cl e autorizado para ser incluído em Andes Wines por Eduardo Brethauer, editor de Vitis Magazine.
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Grapes are good…Wine even better!!!
Translated by César Gonzalez Fernandez.





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